Meu homem – Carta para meu pai

Ele me protegeu quando antes de eu nascer e continuou a fazê-lo após. Ele me largou no mar aos dois anos de idade e graças a este tipo de coragem e ensinamento eu pude fazer o mesmo com meu sobrinho no quarto ano dele aqui na Terra. Ele me ensinou a subir em árvores e a pular delas. Ele me ensinou a não temer, que o medo deve ser vencido sempre até não restar nenhum. Ele me ensinou que errar nossa própria língua é de muito mau gosto. Ele me ensinou que conhecimento é mais importante que bens materiais. Ele me ensinou que um amigo não se abandona, seja para beber, rir, chorar ou matar. Ele me ensinou a identificar o problema em um carro, a trocar os pneus, a dar ponto no motor, a trocar as velas, a me sujar de graxa e a limpá-la. Ele me ensinou que domingo pela manhã, antes da Fórmula 1, é o momento de lavar o carro. Ele me ensinou que fim de semana com sol é dia de praia. Quando nublado, dia da vovó.

Ele me ensinou o que podia sobre armas de fogo. Ele desenhou o antigo famoso símbolo da faca na caveira. O símbolo do medo. Ele me mostrou o que é ser respeitado por subordinados e superiores. Ele me ensinou que todos os fulanos tem nome e que quando não tem é fofoca. Ele me repreendia apenas com olhares e presença. A maior violência era desapontá-lo. Ele me ensinou o que é planejamento e estratégia. Ele me ensinou que a palavra dada tem que valer. Ele me ensinou a ser um homem correto e fiel dentro de casa. Eu deveria ter aprendido isso há muito mais tempo. Ele me ensinou que bandido se captura, algema e prende, mas que também se mata – se for o caso de autopreservação. Ele me ensinou que meu sobrenome é importante e que pela conduta atrelamos orgulho ou vergonha a esse último nome.

Ele me ensinou tudo sem nunca mencionar o nome de qualquer deus. Que na vida somos nós que construímos nosso caminho e que certo apenas a morte. Ele me deu o sangue, os traços e o nome que carrego comigo. Ele me ensinou que homem aprende a consertar tudo em casa. Que homem também arruma a casa, lava a roupa, cozinha e limpa tudo. Ele me ensinou que nunca se foge de uma luta justa e que não se entra em briga fútil. Ele me ensinou que só se puxa a arma para atirar e que o melhor é vencer o inimigo sem desembainhar a espada. Ele me ensinou que conhecimento não tem fronteira e que podemos aprender de tudo neste mundo. Ele me ensinou a ser autodidata. Ele me amou acima de tudo e se tornou o meu herói. Ele é o meu Jack Bauer da realidade porque ele foi um Jack Bauer. Ele me ensinou a viver as mais fabulosas histórias. Ele me ensinou a mergulhar com e sem aparelhos. Ele me ensinou a sobreviver no mato. Dele eu ganhei de presente uma faca de operações especiais, uma bússola e uma corda. Ele me mostrou o que é o amor à família que se forma, aos filhos e à esposa de uma forma tão sublime e profunda que nunca me julguei capaz de reproduzir tal modelo. Ele nunca deu qualquer opinião sem ser solicitado. Ele sempre foi o exemplo do observador silencioso. Muito humilde em seu viver e majestoso em seu agir. Quem o conhece sabe que estas palavras são descritivas e não elogiosas. Que é tarefa árdua encontrar imperfeições, mesmo existindo. Ele que me mostrou o porquê de sermos descendentes diretos de Poseidon.

Este homem que me ensinou a viver e a me tornar o ser que sou hoje eu chamo de pai. Meu pai é o homem mais digno da minha admiração que conheci até hoje. Meu pai é o homem que eu queria ter me tornado e não consegui. Meu pai é o homem do qual sairão as histórias para guiar meu sobrinho. Meu pai não é um herói apenas por que heróis não existem. E o maior defeito que meu pai possui é ser mortal.

Este ano, em 26 de julho, meu pai completa setenta e dois anos de existência. O mundo é melhor só pela presença do meu pai.

Pai, muito obrigado, portanto.

Rio de Janeiro, 24/07/2015, às 18h26.

Angelo Amaral

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