A casa do Lizandro…

A vila e a casa do Lizandro.
A vila e a janela florida do Lizandro.

Hoje (20/nov) senti uma dor enorme, acho que deve ser uma dor igual a de uma punhalada, pois doía lá dentro.

A mãe dele ia deixar ele aqui. Quando ela chegou, fui buscar ele no portão da vila. Ele estava no colo dela. Ela se despediu dele e na hora de me passa-lo, ele disse que queria ficar com a mamãe.
Ela disse “tchau” para ele e ele me abraçou, tentando manter o estado de preguiça em que se encontrava, dormindo do colo dela para o meu.

Entramos em casa, e perguntei se ele queria ir para a piscininha… ainda no meu colo e com a cabeça deitada no meu ombro respondeu: – não, quero ir com a mamãe.
Eu entrei, fechei a porta e fui para o quarto com ele no colo ainda. Sentei na cama enquanto o Guimba tentava pular para beijar ele.
Ele ainda manhoso, resmungou alguma coisa inaudível. Eu tentei colocar ele de frente para mim, o que ele recusou, forçando para continuar com a cabeça no meu ombro.
– Filho, você quer ver o filme do Homem-Aranha?
– Não – respondeu como se estivesse com a boca cheia, resmungando, sonolento, devagarinho. – quero a mamãe.

Algumas vezes, ele faz uma ceninha de que não quer vir e tal, de que quer ficar com a mãe e isso passa rápido.
Ele esperneava antigamente… chorava também, mas tem tempo que ele não fazia um drama desses, eu sentia que era diferente.
Coloquei ele deitado na cama.
Ele com a voz lamurienta me respondia e algo começava a doer em mim.
– Filho, hoje é dia do papai…
– Não… quero ficar com a mamãe.
– Outro dia você vai ver a mamãe.
– Eu não quero ficar na casa do Lizandro!

Sentia uma espécie de estalo na minha cabeça e no meu coração.
Não sei se ele repetiu algo que ele ouviu a mãe dizer, como: – estou indo para a casa do Lizandro deixar o Thomaz…
Só sei que algo foi progressivamente profundo, como uma agulha entrando lentamente dentro da gente, no meu peito.

Peguei ele no colo de novo. Passando a mão carinhosamente nos cabelos dele, eu disse… como quem quer fingir que algo ruim não está acontecendo.
– Filho… vamos para piscininha…
– Eu quero ir para casa da mamãe, não quero ficar na casa do Lizandro…
Eu vi que eu ia fraquejar. Senti que meus olhos estavam refletindo uma dor miúda e profunda, que meu rosto estava expressando uma face meio que retorcida, meio dolorida… vi que poderia até mesmo gaguejar… sei lá. Estava  tudo confuso na minha cabeça. Não podia “brigar” com ele, não podia dizer a ele que aquilo era errado, não quis fazer um “papel” para ele de que ele machuca o papai quando fala isso…
Deitei ele na cama de novo e tentei olhar nos olhinhos dele.
Ele não conseguia me olhar diretamente.
Ameaçou um bico de choro e eu soltei, sem perceber, um: – ai!

Olhando para ele, sentindo uma dor no peito eu não soube o que fazer. Não sei se era simplesmente sonolência dele, não sei se era influência de algo que ele ouviu, não sei se deveria ter tomado uma atitude diferente… sei que eu estava com dor, de verdade.
Levantei sem olhar para ele.
Fui para cozinha, vi a louça na pia do almoço e sem pensar direito, comecei a lavar.
Dizem que água lava tudo, até as coisas ruins, sei mesmo é que eu tentava de algum modo esquecer ou fingir que nada daquilo tinha acontecido.

Depois de lavar quase a louça toda, escutei ele na sala. Ele encontrou um pedaço de isopor e estava soltando floquinho por floquinho. Ele me viu e já era outro garoto.
Sorrindo me disse:
– Pai, coloca o filme do Homem-Aranha?
– Espera eu terminar aqui que já coloco meu filho.
Pronto… acabaram as reclamações dele. Ele acordou e como quem lembra que o Lizandro é o pai dele, se “normalizou”.
Depois fomos na piscininha… nos divertimos muito jogando bola dentro d’água… tomamos banho, escovei e depois penteei ele, coloquei outro filme do Homem Aranha enquanto fazia a janta… ele ficou me perguntando (ele na sala e eu na cozinha) sobre o filme:
– É o dotôr Oquitopus”, pai?
– É filho.
– Ih… olha o Homem-Aranha!!!
– Ele está balançando na teia dele, filho?
– Está sim, pai! Vai Aranhaaa!!!

Jantamos calmamente. Ele comeu boa parte sozinho, mas pediu ajuda no final. Levou o pratinho dele para a pia, depois deitamos na mesma cama e li para ele um livro de histórias adivinha de quem? Pois é… ele adora mesmo.
Pronto, dormiu!
Eu sei que é temporário… que pouco tempo depois ele fica feliz de estar aqui, se diverte, me abraça e diz que me ama e tudo mais, mas… quando essas pequenas crises acontecem… doí muito.

Ele é criança… não sabe expressar direito o que sente.
Mesmo já estando acostumado de ter duas casas, as vezes ele quer continuar em uma, pois já aconteceu dele dizer para mim que não queria ir na casa da mamãe e eu dizer que outro dia ele voltaria na casa do papai… mas doí.
Como doí. Doi quando ele não quer ir, mas hoje doeu muito por ele não querer ficar, e ainda mais, por me chamar de Lizandro, assim, como se eu não tivesse um outro status, um que luto para manter, para fortalecer, para reverberar.

Sei que isso pode acontecer de novo e sei que isso passa rápido. Mas tanto para ir, quanto para voltar… doí! Como doí!

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  1. Boa Noite Lizandro, vi sua reportagem hoje na Globo, estou aqui para te parabenizar por ser esse pai dedicado, amoroso e um exemplo para muitos, sou mãe solteira, de uma menina linda de 14 anos e também passo dificuldades de ser mãe e pai, mas todas as dificuldades são nada perto do imenso amor que tenho por ela. E a minha prioridade sempre será ela. Andrea Hayashi.

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