Paternidade ausente + mãe raivosa = filho doente – Yasmine Saboya

Minha querida Yasmine Saboya, mas uma vez fez um texto muito bom sobre a visão dela sobre como é criar um menino.
Acho que a visão de uma feminista é fundamental para discutirmos como educarmos nossos filhos, e no caso em especial, como mães solo, podem encarar a tarefa de criar cozinhas um menino e assim também criar um homem menos machista.

Leiam o texto e se puderem, deixem a opinião ou experiência de vocês sobre essa visão.
Grande abraço a todos!


Paternidade ausente + mãe raivosa = filho doente

Criei meu filho sozinha. O pai foi morar fora do Brasil quando ele tinha 10 meses e lá se vão dezoito anos. Lembro que, no começo, cada ida ao médico, cada reunião na escola, cada gripe, cada decisão que eu tomava sozinha me causava alguma raiva, mágoa e dor, porque eu queria dividir com a única pessoa que de verdade teria essa incumbência junto comigo. Cada vez que eu queria sair e não podia, a cada final de semana não dividido eu me deixava tomar por um sentimento de auto piedade enorme. Tive um pai super presente e nunca achei normal estar sozinha no desafio de criar uma criança. Mas desde logo me dei conta de que essa é uma realidade muito brasileira e de que meu pai foi uma exceção. Somos um exército de mulheres criando filhos sozinhas e é tão naturalizado que dificilmente se escuta alguém dizer “onde está o pai dessa criança?” quando acontece um problema. É a mãe mesmo a responsável pelo certo e o incerto que vier a acontecer na vida daquele ser em construção. E quando um pai participa em qualquer dose, ganha logo o título do pai do ano!

Só que não. Essa cultura está muito errada e não é natural. Educar e cuidar são tarefas para dois, no mínimo. Há muito o que fazer e dividir solidariamente. É um projeto a dois, seja qual for a proporção de planejamento.
Também me lembro do dia em que decidi que eu ia aceitar esse desafio sozinha mesmo e que não ia transferir pro meu filho os sentimentos que eu guardava, porque ele não tinha maturidade nem responsabilidade sobre os fatos para lidar com eles. Eu pensei: é MEU filho e vai crescer o mais saudável emocionalmente possível. A salvo os recursos financeiros (que o pai, na medida que podia, nunca deixou de mandar, diga-se) a relação entre eles se daria sem a minha intervenção, quando se desse. Nesse dia a auto piedade se foi. Éramos eu e ele e a minha sorte de ver um menino crescer bem e estabelecer sua própria relação com o pai, que mesmo a distância se fazia presente de alguma forma. Rara e pouca. Não entenda com isso que estou defendendo a ausência paterna e a passividade da mãe cujo filho tem um “pai quando dá” (termo roubado de um texto incrível da Camila Fernandes). A minha decisão foi a de preservar os sentimentos da criança, de separar meus sentimentos dos do meu filho, a minha relação com o pai dele da de ambos. A ausência já é desafiadora demais para ser digerida e parece incrível que se repita de geração em geração, de pai pra filho. É como se o menino que teve o pai ausente achasse que pai é mesmo desnecessário e repetisse o feito.

Os filhos crescem e depois que crescem fazem sua própria avaliação da ausência. Uma avaliação dificilmente boa. Geralmente a falta gera questões o bastante, suficientes para que a raiva sentida pela mãe seja absolutamente dispensável no afastamento já construído e inevitável criado pelo tempo. E mesmo que eu tentasse colorir de fantasia a ausência, criando uma paternidade diferente ou justificando a ausência, o resultado estava dado. Crescer é construir sua própria visão dos fatos.

Digo abertamente que nunca falei para o meu filho, ou na frente dele, nada que pudesse causar maus sentimentos em relação ao pai. Eu não reclamava da ausência, eu não dizia que, se algo estava faltando, ele que fosse pedir ao pai. Eu não dizia que o pai era um sacana que tinha abandonado a mim e a ele. Até porque não me sobrou muito tempo para fazer reflexões sobre nada disso. Me ocupei do dia-dia e do cotidiano “simples” e de todos os “tem que” que se impunham e já era ocupação suficiente. A vida não é preta e branca, as decisões não são certas e erradas. As pessoas não fazem as coisas porque são boas ou más. Fazem porque é o que sabem fazer, com a criação que receberam, com as oportunidades e modelos que tiveram.
Verdade que é um desafio sem tamanho criar outro ser humano e que eu mesma não acho que consegui ser saudável na maior parte do tempo. É um “emprego” 24 horas por dia. É estar bem quando se está cheia de tormentas internas, é acordar de madrugada ou nem dormir, depois de um dia exaustivo de trabalho. Ser mãe solo é, na maior parte do tempo, não ter espaço pra sí. Eu com certeza não fui uma mãe perfeita, até porque a perfeição é muito chata e nada realista. Mas quando olho pro meu filho hoje, com 18 anos, crescido e consciente, vejo que não dividir meus desabafos com ele ao longo da infância rendeu bons frutos. Não vejo nele o rancor, uma percepção do pai onde repousam todos os fracassos e percalços que possam vir a acontecer na vida. Não percebo raiva. Vejo aceitação e tranquilidade. E imagino que dificilmente vai ser um pai ausente.

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