"O Deus Branco que nos Perdoe" – comentário e texto

preto

Li um texto tão dolorido sobre uma realidade tão macabra que me fez refletir o quão difícil é ser pai negro nesse país.
O texto é de uma negra e ela usa suas referências enquanto mulher, mas invertendo o gênero não deixa de ser menos dolorido e mesmo que não inverta, imaginar a dor da angústia que uma mãe consciente do racismo que seu filho passará antes mesmo de nascer…  me “provocou”.

Sei que o racismo é algo muito ruim, e que infelizmente é algo muito pouco enfrentado na nossa sociedade. Eu não sou negro de pele, mas tenho um pouco de negro na minha alma, no meu coração e na minha visão de vida que teima em achar que certas coisas são absurdas demais para existirem, mesmo que existam.

Bem, o texto é de Luara Colpa e foi publicado a poucos dias, mas já está viralizando pela internet, pois se tem algo que ando feliz quando o tema é racismo, é que cada vez mais vejo gente compartilhando pelo fim desse mal.

O quanto uma mãe negra precisa se preocupar com seu filho?
O quanto que um menino negro sofre por antecedência nesse mundo meritocrático que já coloca pessoas em níveis diferentes e apregoa que todos tem direitos iguais?
O texto me comove pela dor que eu tenho eu refletir no quanto eu sofreria pela simples existência de um filho meu que passar por essa sociedade racista, passiva e ativa nos seus preconceitos.

Espero que goste e pense bem no quanto essa sociedade precisa melhorar por nossas crianças.
Grande abraço a todos!
Força a Honra, Sempre!
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O Deus Branco que nos Perdoe.

Estou a parir meu filho preto. Na maca onde a enfermeira impaciente empurra minha barriga. Me livro da dor pensando em seu futuro.
De uniforme e banho tomado ele desce a ladeira:
– Cuidado ao atravessar a rua! (Ele olha pra trás e sorri)
– Não esquece a merendeira hein filho? – Tá mãe!!
– Esteja bem vestido (para não te confundirem … com ladrão).
– Não erga a cabeça pro polícia. 

 

Vou franzindo a testa e abaixo o tom de voz:

 

– Ande com carteira de Trabalho no bolso e apresente-a sempre que abordado.
– Se quiser ter o cabelo colorido, será confundido com bandido. Se quiser homenagear seus ancestrais e fazer dreads e penteados, será chamado de vagabundo.
– Você poderá apanhar na cara – Por que mãe? Porque sim, Não revide
– Você sofrerá revistas vexatórias todas as semanas da sua vida. Porque sim.
– Você será chamado de macaco, “esse preto”, “de cor”.
– Não ande em grupos pra não ser confundido com arrastão.
– Estude filho, vão falar que as cotas o salvou, que é incapaz. Não dê ouvidos à eles.
– Se você se esforçar muito no trabalho, será chamado de “moreninho até que esforçado” e mesmo que te explorem e expurguem, e que seu salário seja menor que o de todos… usarão seu exemplo, pra justificar a Meritocracia canalha que nos imputam.
– Em qualquer furto na empresa você é o suspeito, filho. Sim.
– Você será mal visto o resto da sua vida na família da sua namorada branca. Porque sim também.
Sua mãe vai sofrer violência obstetrícia no hospital. Porque é preta. Você vai nascer na contramão da vida. Porque alguma igreja um dia disse que não tinhamos alma. 
Que nossa cultura era inferior, e mediram nossos dentes e nossas canelas. E nos deram um terço pra tentarmos nos redimir de termos nascido nessa cor.
Quando acharam oportuno, vestiram nossos turbantes e se apropriaram da nossa capoeira. Quando não nos queriam mais, nos forjaram “livres” na Lei do sexagenário. E então fomos expulsos da escravidão para a escravidão real.
Aqui estamos. Somos a história dos centros urbanos, filho. Fomos expulsos do modelo de cidade e do convívio entre pessoas. Nunca fomos pessoas.
Da periferia pra periferia seguimos, expurgados.
Não nos perguntaram onde construímos nossa vida, nossa raiz. Somos sem estória.. A cada despejo fomos para a região metropolitana que nos colocavam. Em cada plano de habitação que meia dúzia de engomados brancos escreveram, fomos encaixotados nos predinhos de 40m². Bem longe. Longe dos olhos dos gringos.
Taparam nossas casas com tapumes pra Copa do Mundo. Botaram camburão na nossa quebrada, pra nos lembrar que desde “o fim” da escravidão, não sabem o que fazer pra tampar nossa existência.
Vão te dizer que mesmo em Estado de Sítio, você tem direito à ir e vir no seu país (que seus ascendentes construíram lajota por lajota.. paralelepípedo por paralelepípedo).
Mas você será executado à luz do dia filho. Na porta de casa. E eu vou lavar seu sangue.
Você será metralhado com 50 tiros. Você e seus amigos pretos. Porque sim. Porque fazem parte da parcela da população que tem que ter regras pra estar vivo. Que é achincalhado desde o nascimento.
Nos exterminarão todos os dias, todos os dias “um crime isolado”.
E jogarão a culpa no policial noiado, no indivíduo sob pressão, na legítima defesa. A sociedade não reconhecerá que são todos cúmplices da sua morte.
Eles estão certos, agem em “legítima defesa”. Te avisei pra não sair sem a carteira de trabalho filho. Aliás, nem deu tempo de mostrar né? Te avisei pra não encarar o polícia…. Também não precisou. É, não deu tempo.
Vamos entrar pra estatística filho.
Eles só tem a televisão. Só tem a visão longínqua e deturpada do que somos. Eles desligarão a TV quando incomodar. Eles não sabem de mim, nem de você.
Só mais uma mulher sozinha parindo sob violência.
Só mais um preto metralhado. O Deus branco que nos perdoe, somos sem alma.
#‎Podiasermeufilho .
Luara Colpa .

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