Paternidade e Morte

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Eu tenho que lidar com a morte há muito tempo.
Mais tempo do que gosto de lembrar.
Foi por meio dessa sombra fúnebre que fui moldado e me tornei muito do homem que sou atualmente, inclusive como pai.

Pela morte da minha mãe, aos meus nove anos de idade, senti a primeira dor profunda da real perda de um ente querido. Por causa disso, cobrei mais do meu pai e também fui cobrado, lapidando desde minha adolescência o tipo de pai que queria ser, dentre tantos outros aspectos da minha personalidade.

No entanto, não é sobre essa morte em especial que eu queria falar. Isso é só para ajudar a refletir o quanto que isso mexe com a gente.
Venho lidando com muitas sombras da Morte recentes, que me fizeram pensar sobre o quanto que isso mudou, na minha forma de enxergar as consequências dela, depois que me tornei pai.

Há alguns meses enterrei a mãe de uma antiga amiga minha.
Lembro do pastor discursando no velório. Ele disse algo muito significativo para mim: o quanto ela foi uma mãe e avó dedicada. No quanto ela refletia sobre o que iria deixar para a sua prole, nos dias anteriores à sua morte – ela enfrentou um câncer por muito tempo.

A mãe dessa amiga minha viveu pelos filhos e posteriormente para o neto.
Abdicou de conceitos morais de certo e errado para defender o filho, que tantas vezes foi indefensável nos seus defeitos e no mal que gerou para tantos ao seu redor de muitas formas. Vendeu bens para ajudar a sustentar as dificuldades que os filhos tiveram, geraram. Aturou um marido abusivo-agressor até a morte deste, acredito eu, para poder manter uma “família”. Entrou para igreja, entendo eu, para poder expurgar o sofrimento materno e feminino e pedir dias melhores aos seus. Sempre foi uma mulher e mãe submissa ao patriarcado e morreu esperando que seus filhos e seu neto recebessem ajuda divina na sua ausência.

Não sei e nem posso qualificar se ela foi uma mãe boa ou ruim.  O que sei é que ela foi uma mãe que morreu pensando nos seus.
Fez-me pensar no seguinte: que tipo de pai eu quero ter sido para meu filho quando me for? Estarei presente na vida dele até quando? Poderei ver e ajudar nos augúrios em que ele venha a passar? Terei deixado ele pronto para ser um homem independente sem seu pai ou mãe?

Essa reflexão me tomou muitas horas. Não tenho respostas ainda e nem sei se as terei um dia.

Mais recentemente, fui na cerimônia de 7º dia de falecimento de um amigo de infância. Morreu de ataque cardíaco fulminante, aos 38 anos. Pai de três crianças e padrasto de duas. Filho de uma antiga professora minha. Com a morte dele, ela mesma disse, se tornou “órfã de filhos”, pois também perdeu sua filha mais velha para o câncer, há mais de 20 anos, quando esta tinha 22 anos.

O filho da minha professora estava em casa com a enteada, acho que de 13 anos e o filho mais novo, um menino de apenas um aninho, completado recentemente. Caiu duro no chão da sala, inesperadamente.

Além de pensar sobre o vazio que ficou naquela família, indaguei a respeito do que eu estaria deixando para meu filho agora, se morresse com mais ou menos a mesma a idade em que fui “deixado” pela minha mãe. Como ele reagiria? Como ele se lembraria de mim? Qual o impacto que isso geraria nele?

Tento me empatizar com minha querida ex-professora: como é perder um filho? Imagine perder dois filhos?! O que passa na cabeça de um pai ou de uma mãe ao enterrar um filho ou filha que você viu crescer e cuidou com tanto amor? Como viver com esse buraco?

Nossa… isso me tirou do eixo ainda mais. Para piorar, essa onda nefasta de mortes coincidiu com outras tragédias: tenho dois amigos (um pai e uma mãe) lutam, atualmente, contra o câncer também. Oh, doencinha maldita!

Com ele, ainda não me aprofundei em conversas sobre o que ele sente, no quanto isso afetou o psicológico dele, enquanto que com ela, o debate foi mais dolorido.

Ela me procurou uns meses atrás para pedir saber sobre minha visão de filho órfão de mãe precocemente. Ela queria saber, para o caso do tratamento dela não dar certo e ela perder a luta, como eu acho que poderia ter sido menos impactante para mim, perder minha mãe. Como eu poderia ter sido melhor preparado para algo tão assustador, especialmente quando se é uma criança.
Ela queria pensar em uma estratégia de como poderia preparar melhor sua filha para sua possível ausência.

A pergunta me é dolorida de múltiplas formas. Claro que sempre levanta umas lembranças tristes da minha orfandade, mas também me dói fortemente a ideia de perder minha amiga, da possibilidade de ela deixar brevemente a filha órfã e da dor que essa menina teria que enfrentar tão cedo, dor que foi avassaladora para mim.

Nossa conversa foi por mensagem e acho que por isso conseguimos ser mais práticos e diretos do que emotivos.
Acho que eu deveria ter sido preparado para ser emocionalmente mais forte. Inclusive, vislumbrando a vida sem minha mãe. Eu fui poupado desse debate. Nunca me fizeram ou deixaram acreditar que eu iria perder minha mãe. Ela lutou por dois anos contra a doença e morreu em casa, fraca, mas na minha cabeça, um dia ela iria se recuperar ou mesmo conseguir viver daquele jeito vulnerável. Nunca tive motivos para encarar a possibilidade de viver sem ela, por isso, apesar dos longos dois anos, por incrível que pareça, eu fui pego de surpresa. Eu tinha nove anos.
Não culpo minha mãe ou meu pai pela forma como fui preparado, pois acredito que não tinham como saber a forma que eu iria reagir, qual seria a melhor maneira para eu lidar com tudo isso. Sei que esperaram o melhor para mim.

A morte afeta demais adultos. A morte para uma criança, então, pode transformar radicalmente esse pequeno coração.
Pensar na forma que eu gostaria de ter sido menos impactado, claro, me fez pensar nas formas que quero educar meu filho para seguir a vida dele sem seus genitores.
Várias são as perguntas que me martelam a cabeça por causa dessas experiências recentes:

Como posso preparar meu filho para a morte?
O que irei deixar de legado para ele?
Que tipo de pai terei sido aos olhos dele?
Terei conseguido propiciar uma formação onde ele possa viver intensamente a vida dele?

Como disse anteriormente, não tenho essas respostas agora. Creio que nunca terei.
Mas me faz pensar no quanto amo meu filho e no quanto quero ajudá-lo a construir sua vida.
Não sei o tipo de pai que isso me torna e nem sei plenamente como ajudar ele nesse caminho, mas sei que devo dedicar todo o meu amor para ele, pois só o que nos resta, mesmo, são as conexões que criamos nessa vida. E quero que ele se lembre de que eu o amei, como nunca amei ninguém.

 

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