Vamos Falar da Cultura do Estupro

Essa semana, aqui no Rio, ocorreu um fato, que posso minimamente adjetivar como hediondo, já que me faltam palavras para descrever tudo o que ocorreu.
Uma menina de 16 anos foi estuprada por 33 homens!

Acho que isso tudo é culpa social (além da culpa deles, claro), pois não falamos aberta ou francamente sobre nossa cultura do estupro.

Não sei se todos entendem isso, mas precisamos falar sobre essa faceta cultural brasileira, a do estupro.
Por que digo brasileira? Não existe em outros países? Claro que existe, mas acho que podemos falar com mais propriedade sobre o problema dentro de nós mesmos, do nosso país, do nosso modo de vivenciar as coisas.

Eu, como homem, cresci numa sociedade que divide bem o sexo que o homem faz do que o que uma mulher faz. Não posso falar com propriedade sobre como é passado e sentido por elas, mas posso falar da generalização que é passada a nós, homens.
Para nós, é embutida a ideia de que devemos “lutar” para conseguir fazer sexo. É um dever moral fazer logo (no caso dos adolescentes) e nunca recusar uma “oportunidade”. Nos é passada a ideia de que temos que provar nossa virilidade, nossa masculinidade, e isso é feito, sendo “macho”, ou seja, “comendo” uma mulher.

Uma dentre tantas vítima de estupro dessa cultura machista

Não sei bem se mulheres entendem isso, mas quero deixar uma coisa bem clara: esse pensamento é socialmente enraizado em nós e muitos seguem assim a vida toda.
Se eu concordo com isso? Claro que não. Mas isso não é importante, pois também sou parte dessa sociedade e sim, já participei de várias manifestações machistas – seja fazendo piadas, rindo das mesmas ou por ter de alguma forma incentivado isso, reproduzindo nem que seja minimamente esse pensamento social.

Não, não é uma carta de mea culpa que faço, não.
Não me sinto responsável por esse estupro, mas como homem, tenho que fazer mais. Não é só apoiar o fim dessas piadas, não é só criticar quem comenta coisas do tipo: – “ela queria dar e você não comeu?”

Tenho que fazer mais. Tenho que ampliar esse debate.
Tenho que mostrar aos que me cercam – homens e mulheres – que isso constrói uma ideologia de que é normal o homem ser homem mostrando poder pelo sexo. Tomando, conquistando “algo” das mulheres.

Por que eu, como homem, devo ter esse tipo de preocupação se não sou o “foco” dos estupros?

Porque tenho, no meu caso, sobrinhas, tenho amigas, cunhadas, tenho tias, alunas e acho que todos nós, homens, temos mulheres importantes para nós. Mesmo que não tenham, ninguém tem esse direito sobre mulher nenhuma. Temos que apoiar essa luta! Temos que interromper esse ciclo ruim!
Apesar de todos quererem sexo com uma mulher ou outra por desejá-la fisicamente, psicologicamente ou por qualquer outro fetiche que tenha, não podemos fazer isso sem consentimento e nem sermos ofensivos por termos tais desejos.

Não é porque quero um chocolate que posso roubá-lo.
Não é porque quero ver um filme no cinema que posso falsificar a meia-entrada.
Não é porque estou com pressa que posso furar fila.
Não é porque tenho vontades que posso realizá-las a todo custo.

Esses homens não são doentes mentais. Esses homens são doentes sociais! É algo bem diferente.
Tiraram algo, à força, de alguém que não pediu para o fazerem, não consentiu.
É uma hedionda falta de ética social, fruto de uma cultura machista social.
Tem que ser combatida e punida.

E antes que eu esqueça… não, vestimenta não é consentimento.
Assim como: batom vermelho, peitos e bunda grandes, cabelo curto ou grande, tatuagem, ouvir funk, falar palavrão, ser bonita, andar sozinha à noite, ser sacana e falar que gosta de sexo, ter feito sexo casual com outro, bêbada e sei lá mais de que outras formas que estupradores e machistas comuns fantasiam… não é consentimento.

Sim, sou machista, como talvez todo homem seja, já que não só não vivemos os problemas femininos como muitas vezes os reproduzimos e os perpetuamos por não entendê-los, percebê-los, mas acho que uns podem ser bem piores que outros. Fazer isso de maneira ativa é bem pior do que de maneira passiva, mas temos que mudar tudo isso.

Porque eu, como pai solteiro, acho que tenho que falar isso no meu blog? Porque apesar de ser pai de menino e não imaginar que meu filho venha a sofrer por uma desgraça dessas, tenho duas preocupações básicas:
1 – que meu filho não seja um reprodutor desse tipo de cultura, e que eu consiga conscientizá-lo de que isso é abominável e que ele tem que ser homem, aí sim, para ajudar a impedir que esse tipo de coisa seja perpetuada;
2 – que eu, compartilhando essa reflexão, possa ajudar os homens que me ouvem e me leem, a repensar melhor suas ações, ajudando a acabar com essa cultura também.

A estuprada é sempre a vítima, não importa se ela é bonita, gostosa, solteira, se não vai na igreja, “não cuida da casa”, “deu bobeira”, “deu motivos” ou “estava no lugar errado”.
Devemos nos prevenir sim, mas o problema é que estupro acontece em qualquer lugar, com qualquer mulher, em qualquer situação, então não é porque ela era desejada que ela merecia ser estuprada.

Denuncie casos e critique comentários e piadas.
Ajude a conscientizar nossa sociedade de que nós homens, não podemos nos calar só porque não é um “problema nosso”! É de todos nós!
Ser homem é uma condição que não é alinhada com poder fazer o que quer com quem quer. Temos que quebrar isso. Ensinemos melhor nossos filhos a serem mais conscientes.

Espero poder contribuir assim, para que outras meninas e mulheres não passem por isso.
Espero que nós homens possamos ajudar nossa sociedade a ser mais igualitária sexualmente e entendamos que uma mulher merece tanto respeito quanto nós.

Meus sinceros sentimentos para a família da menina e sinto muito mais a ela.
Força, querida! Você não merecia isso! Mulher nenhuma merece isso!
Que o seu sofrimento se transforme em algo positivo, como um marco na mudança de atitude social que eu tanto espero.

Lutemos por nossos filhos!
Força e Honra, Sempre!
Grande abraço do grande!

Obs¹: O telefone para denunciar maus tratos e abusos às mulheres é o 180.
Obs²: Para quem não sabe bem o que fazer a respeito, dá uma olhada nesse vídeo, e entenda nosso papel para acabar com isso.

O seu silêncio ajuda o estuprador

Posted by Empodere Duas Mulheres on Thursday, May 26, 2016

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